Com mais de duas décadas de experiência no diálogo diário com investidores internacionais, Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice e mestre em Ciência Política, aponta que o Brasil falha na comunicação com o capital estrangeiro. Durante eventos recentes com grandes gestores globais, constatou-se que, embora o país divulgue indicadores macroeconômicos e dados sobre a dívida pública, há uma enorme dificuldade em acompanhar oportunidades de investimento, mudanças regulatórias e o funcionamento dos processos decisórios do governo.
Essa opacidade eleva os custos de análise de projetos e frequentemente resulta no adiamento de decisões de aportes financeiros. Em setores estratégicos como infraestrutura, data centers e minerais críticos, o Brasil concorre diretamente com nações como México e Índia, tornando a agilidade e a clareza informacionais fatores decisivos. Além da barreira idiomática imposta pelo português, o ecossistema brasileiro de informações depende excessivamente de intermediários, enquanto a imprensa internacional tende a focar apenas em grandes crises, deixando de lado pautas regulatórias fundamentais para quem deseja investir a longo prazo.
Apesar de existirem iniciativas governamentais isoladas — como a atuação da Apex, do BNDES e do setor comercial do Itamaraty —, essas ações ainda chegam de forma dispersa aos fundos soberanos, fundos de pensão e gestoras. Um exemplo recente ocorreu com a sanção do regime tributário especial para data centers (Redata), que gerou intensa demanda por esclarecimentos sobre regulamentações, habilitações e cronogramas, evidenciando a carência de um canal centralizado e preditivo de informações.
Para solucionar esse cenário e atrair capital de forma mais eficiente, o especialista propõe quatro sugestões estruturais direcionadas ao governo federal:
- Uma central de informação no Planalto: Criação de uma pequena equipe editorial para gerenciar um boletim semanal em inglês (e outros idiomas) chamado What's Happening in Brazil. O material incluiria notas técnicas sobre leis e decretos em até 48 horas e relatórios setoriais bimestrais sobre infraestrutura e energias renováveis, detalhando prazos e pendências.
- Um portal único (Investing in Brazil): Plataforma centralizadora que unificaria leilões, concessões, projetos e debates regulatórios em andamento no Executivo e no Congresso, oferecendo dados padronizados, estágios de aprovação e contatos responsáveis devidamente atualizados.
- Rede de distribuição diplomática: Utilização estratégica da ampla rede de embaixadas e consulados para manter contato regular, periódico e segmentado com empresas, câmaras de comércio bilaterais e gestoras estrangeiras, avaliando o desempenho por meio do suporte prestado às análises de projetos.
- Canais permanentes de conversa: Manutenção de canais diretos pelo Ministério da Fazenda para responder a investidores, incluindo teleconferências bimestrais com ministérios setoriais e eventos presenciais semestrais em centros financeiros globais como Nova York, Londres, Abu Dhabi e Singapura, com a participação da Apex, reguladores e analistas independentes.
A coordenação dessas frentes ficaria a cargo de um representante no Palácio do Planalto com experiência no setor produtivo, contando com o suporte do Itamaraty e da Apex, a exemplo de modelos internacionais bem-sucedidos como o Office for Investment do Reino Unido. Embora a informação por si só não substitua fundamentos fiscais sólidos e instituições robustas, garantir clareza regulatória evita que o investidor global descarte oportunidades brasileiras simplesmente por falta de compreensão.
Fonte original: Brazil Journal