Economia

A Estratégia da Shell na Venezuela: Por Que o Gás Natural Superou o Petróleo Pesado nos Planos da Gigante de Energia

A Estratégia da Shell na Venezuela: Por Que o Gás Natural Superou o Petróleo Pesado nos Planos da Gigante de Energia

É praticamente impossível debater o cenário energético da Venezuela sem imediatamente associá-la às suas colossais reservas de petróleo. No entanto, para a multinacional Shell, o verdadeiro foco estratégico e o maior potencial de valor no país sul-americano residem em outro recurso: o gás natural.

Durante um evento realizado em Londres, o CEO da Shell, Wael Sawan, declarou que enxerga vantagens competitivas muito mais expressivas na exploração do gás venezuelano do que na extração de seu petróleo pesado. A declaração, repercutida pela agência Reuters, ilustra uma transformação profunda no mercado global de energia. Após décadas sendo tratado como um mero subproduto de menor valor comercial em relação ao chamado “ouro negro”, o gás natural vem ganhando protagonismo central nas agendas estratégicas de grandes corporações e investidores internacionais.

Sawan também pontuou que a gigante petrolífera inglesa seguirá monitorando e avaliando novas oportunidades de negócios na Venezuela. O país voltou a figurar com destaque no radar das principais empresas globais do setor de óleo e gás após a queda e prisão de Nicolás Maduro com intervenção dos Estados Unidos. Como reflexo dessa nova fase, a Shell firmou em junho cinco acordos estratégicos voltados ao desenvolvimento de projetos petrolíferos e gasíferos no território venezuelano, com destaque para o campo offshore de gás de Loran, cujas reservas impressionantes são estimadas em 7 trilhões de pés cúbicos.

Apesar do otimismo com os novos horizontes, Sawan fez questão de ponderar que a confiança institucional e mercadológica na Venezuela não será recuperada de forma imediata. O executivo classificou as perspectivas da companhia para o país como “cautelosamente otimistas”, reforçando que a Shell manterá uma postura analítica rigorosa diante de cada nova oportunidade de investimento.

Além da promissora iniciativa no campo de Loran — empreendimento que também deve contar com a participação da BP —, a companhia britânica está ativamente envolvida no campo venezuelano de Dragon. O avanço planejado dessas frentes operacionais permitirá que a Shell escoe e exporte gás diretamente a partir da Venezuela. A logística inicial prevê o transporte da produção para a ilha vizinha de Trinidad e Tobago, onde o insumo será devidamente processado em Gás Natural Liquefeito (GNL) antes de ser despachado para os mercados internacionais.

O apetite corporativo pelo GNL é sustentado por projeções robustas da própria Shell. Estudos da companhia indicam que a demanda global por GNL deve disparar 65% até o horizonte de 2050, alcançando a marca de 700 milhões de toneladas anuais. Esse crescimento é impulsionado pela busca de governos ao redor do globo por fontes de energia mais confiáveis, flexíveis e capazes de garantir a segurança energética nacional.

Essa tendência de expansão é detalhada na mais recente edição do relatório LNG Outlook, publicação anual iniciada pela Shell empolgada em 2017. Desde o lançamento do documento, o ecossistema global do setor registrou transformações expressivas:

  • O número de países importadores de GNL saltou de 36 para 49;
  • As compras realizadas pela China experimentaram um crescimento vertiginoso de 250%;
  • O volume total do comércio global de GNL avançou aproximadamente 60% no período analisado.

No relatório mais recente, a Shell chamou atenção para um novo vetor de consumo que pressiona a demanda por GNL: a proliferação de data centers. Essa nova exigência energética já começa a se fazer notar inclusive em mercados asiáticos altamente maduros e industrializados, a exemplo do Japão.

No contexto específico da Venezuela, a opção por direcionar aportes financeiros ao setor gasoso faz total sentido comercial e técnico para a estratégia da Shell. O petróleo encontrado no território venezuelano é predominantemente pesado, característica que demanda processos de refino consideravelmente mais caros e complexos. Como consequência direta dessa dificuldade técnica, os barris do país acabam sendo negociados com expressivos descontos no mercado internacional. Além disso, embora a nação sul-americana seja amplamente conhecida como detentora das maiores reservas brutas de petróleo do mundo, análises e estimativas independentes apontam que os volumes economicamente recuperáveis situam-se em patamares substancialmente inferiores aos dados oficiais divulgados.

Vale destacar que a Shell não caminha sozinha nessa empreitada. A concorrente BP também tem apostado firmemente no potencial do gás venezuelano, concentrando esforços e investimentos nos projetos dos campos de Loran e na iniciativa vizinha de Cocuina-Manakin, consolidando um movimento coletivo das grandes potências energéticas rumo à nova matriz de exploração do país.


Fonte original: Brazil Journal